Ana Maria Gonçalves é a primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras

Pela primeira vez em seus 128 anos de história, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu uma mulher negra como imortal. A escritora, roteirista e dramaturga Ana Maria Gonçalves, de 55 anos, conquistou a Cadeira nº 33 da instituição na última quinta-feira, 10 de julho, tornando-se também a mais jovem entre os atuais membros.

Autora do aclamado romance Um Defeito de Cor, Ana Maria recebeu 30 dos 31 votos possíveis no pleito. O único voto restante foi para Eliane Potiguara, referência na literatura indígena e autora do recente Conhori e as icamiabas: Guerreiras da Amazônia (2025).

Mineira de nascimento, Ana Maria Gonçalves ocupará a cadeira que pertencia ao gramático Evanildo Bechara (1928–2025), falecido em maio deste ano. A eleição simboliza uma virada de página na história da ABL, marcada por décadas de hegemonia branca e masculina, e representa um avanço histórico no reconhecimento da diversidade e da representatividade na literatura brasileira.

Além de escritora, Ana Maria é roteirista e dramaturga. Sua obra mais conhecida, Um Defeito de Cor, é considerada um clássico contemporâneo da literatura nacional. O romance venceu o Prêmio Casa de las Américas (2007) e foi eleito por um júri especializado como o melhor livro da literatura brasileira no século 21. A história de Kehinde — uma mulher africana escravizada que, no século XIX, atravessa o oceano em busca do filho — é uma narrativa potente sobre ancestralidade, resistência, racismo e a brutalidade da escravidão.

O impacto cultural da obra ultrapassou as páginas do livro. Em 2024, Um Defeito de Cor inspirou o samba-enredo da escola de samba Portela no Carnaval do Rio de Janeiro, levando ao sambódromo uma celebração da força, da dor e da memória do povo negro brasileiro.

Outros nomes inscritos para a cadeira nº 33 incluíam Ruy da Penha Lobo, Wander Lourenço de Oliveira, José Antônio Spencer Hartmann Júnior, Remilson Soares Candeia, João Calazans Filho, Célia Prado, Denilson Marques da Silva, Gilmar Cardoso, Roberto Numeriano, Aurea Domenech e Martinho Ramalho de Melo.

A eleição de Ana Maria Gonçalves não é apenas um marco para a ABL. É um sinal de que a literatura brasileira, aos poucos, começa a se abrir para outras vozes, outras histórias — aquelas que foram silenciadas por séculos, mas que agora ecoam com força e legitimidade no coração da cultura nacional.

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