Já se passaram 600 dias desde o início do massacre contra o povo palestino em Gaza — uma tragédia humanitária de proporções inomináveis que desafia não apenas os tratados internacionais, mas a própria noção de dignidade humana. O que se vê é uma guerra de extermínio, cujas imagens e relatos percorrem o mundo, sem que os mecanismos da justiça internacional consigam estancar o sangue ou fazer valer os princípios universais de direitos humanos.
Milhares de civis mortos, grande parte deles mulheres e crianças. Infraestruturas civis completamente destruídas, hospitais sob bombardeio, escolas reduzidas a escombros e famílias inteiras enterradas sob os destroços. A cada novo dia, cresce o número de mortos, desaparecidos e desalojados — enquanto o silêncio ou a cumplicidade das potências globais ecoa alto no vazio da diplomacia.
O cerco a Gaza ultrapassa os limites de qualquer justificativa militar. Trata-se de uma punição coletiva com contornos de limpeza étnica, amplamente denunciada por especialistas da ONU, organizações humanitárias e movimentos internacionais de solidariedade. É um ataque direto à sobrevivência de um povo, à sua história, ao seu território e ao seu direito à existência.
Diante do colapso dos sistemas de saúde, abastecimento e socorro, o povo palestino resiste entre os escombros — sustentado por uma luta que atravessa gerações e que, mesmo diante da brutalidade, não se curva. O direito internacional, nesse cenário, parece distante e impotente. A justiça, adiada. A paz, cada vez mais uma miragem.
Os 600 dias de massacre em Gaza não são apenas números: são 600 dias de omissão global, de diplomacia fracassada e de uma ferida aberta na consciência da humanidade. Cada dia que passa sem cessar-fogo, sem responsabilização e sem reconstrução é mais um passo em direção à barbárie institucionalizada.
O que está em jogo não é apenas a vida do povo palestino — é a integridade do sistema internacional, é a memória histórica dos genocídios passados, é o compromisso ético com o “nunca mais” que ecoou no pós-guerra e que hoje, mais uma vez, é posto à prova. Gaza sangra, e o mundo assiste.
Mas nem todo o mundo se cala. Há vozes que denunciam, há mãos que socorrem, há corações que se rebelam. Porque a solidariedade internacional pode não deter bombas, mas impede o esquecimento. E enquanto houver resistência e memória, haverá também esperança de justiça.
Embaixador de Palestina na Onu chora ao falar de crianças de Gaza. / Reprodução: @renascenca
Rita Freire


